Um dos motivos de eu adorar a biblioteca da universidade é que em meus frequentes passeios por ela, sempre me deparo com livros que, de outro modo eu nem ia saber ou demoraria mais ainda a ler. Tem uma seção na biblioteca dedicada a biografias de matemáticos e foi numa dessas passagens que peguei uma autobiografia de , o “Enigmas of Chance”.
Kac foi um matemático polonês que emigrou aos EUA pouco antes da invasão da Polônia pela Alemanha nazista. Foi bastante ativo na área de probabilidade e estatística e trabalhou com vários matemáticos eminentes, entre eles, .
Apesar de não achar tão cativante quanto a biografia “The Man who loved only numbers” (sobre Paul Erdös), o livro do Kac tem seus méritos, já que acabei aprendendo algumas coisas aqui e acolá.
Uma que achei interessante é o efeito Mateus (em inglês, ), termo cunhado por Robert Merton, que descreve a tendência de cientistas famosos obterem mais crédito do que deveriam que cientistas não tão famosos, por trabalhos similares. Isso não é novidade, eu só não sabia que tinha um nome.
O nome vem do versículo Mateus 25:29:
“Porque a todo o que tem, dar-se-lhe-á, e terá em abundância; mas ao que não tem, até aquilo que tem ser-lhe-á tirado.”
Kac mencionou o estudo de , que descreveu o movimento browniano. Outro cientista, Albert Einstein, também explicou o fenômeno, de maneira diferente. Não é nenhuma surpresa que hoje pouca gente saiba disso e o crédito ser atribuído geralmente só a Einstein.
Outro exemplo que vi, desta vez na Wikipedia, é a noção de (basicamente, qual o menor recurso computacional necessário para descrever algum objeto – veja mais no verbete da Wikipedia). Ray é que formalizou essa noção, consequência de seus estudos na teoria de probabilidade algorítmica. chegou às mesmas ideias pouco depois de Solomonoff.
Sem contar que, a , é atribuído o título de “pai do computador”. De fato, vários de seus estudos revolucionaram e ajudaram a impulsionar a teoria da computação e de informação. Mas é injusto atribuir créditos apenas a ele, alguns de seus estudos também tinham ideias expandidas de outros colaboradores. Mesma coisa com a teoria dos jogos, poucos se lembram de , que escreveu em conjunto com von Neumann o livro que inaugurou oficialmente a teoria dos jogos na matemática.
Eu resolvi pesquisar para ver se não era o caso de (um dos descobridores do ) e de (que também decifrou a estrutura correta do DNA). O primeiro caso, de Lattes, foi mais pelas regras injustas do comitê Nobel, que até 1960 só premiava o líder de pesquisa do grupo.
E o segundo caso, de Rosalind Franklin, me levou a conhecer o corolário do efeito Mateus, o . Primeiro, deixe-me dizer o que significa corolário: é a consequência imediata de um teorema ou postulado, nesse caso, o efeito Mateus.
Cunhado pela historiadora científica Margaret Rossiter, por causa de Matilda Gage (que experimentou “em primeira mão” o efeito), identifica a situação em que mulheres cientistas recebem pouco ou nenhum crédito pelo seu trabalho científico.
Esses são só alguns dos exemplos. E assim segue a história da ciência… Parece que hoje a situação melhorou bastante, mas ainda tem o que melhorar. O futuro nos dirá.
Ver mais:
Fonte do trecho bíblico .
Excelente post (mais um) da CyberGi… vou levar alguns dias para deglutir e análisar essa massa de dados !
Valeu !
Jorge, depois que digerir, diz aí suas conclusões
Eu também não sabia que havia um nome para o fenômeno da falta de reconhecimento+atribuição do mérito a alguém mais “pop”. Adorei o post, Gi. Com a medida certa de empolgação, sem escorregar demais para o lado geek da coisa, você está se especializando em textos científicos que possam ser lidos (e compreendidos) por leigos. Beijão!
Valeu, Mila! =D Uma frase que sempre tenho em mente é aquela de Einstein (a frase exata não lembro, mas é por aí): “Você não entendeu realmente alguma coisa até conseguir explicar isso para sua vó”.
(ei! não tô te chamando de vó =P)
Eu já conhecia alguns dos casos citados, mas não sabia que existia um nome pra isso. Pra mim era usurpação mesmo hehehe
Muito bacana o texto, Gi. Mandou super bem!!
By the way, curti o novo design
Valeu, André! Ah, o template ainda é experimental, ainda vou botar um banner. Mas é bom saber que pelo menos está agradando o layout novo ^^
Ótimo post Gi sempre bom saber dessas nuances. Desinformação mais um certo medievalismo na academia dá nisso. A estrutura da academia é arcaica e por isso mesmo dá espaço pra uma antiga prática humana, a politicagem e seus aspectos menores, como a autopromoção em cima do trabalho alheio.
Demian, nem todos os cientistas fazem isso diretamente e sim a própria história. Alguns cientistas, como o Smoluchowski, enquanto estavam vivos, tiveram seus trabalhos reconhecidos, até mesmo pelo cientista famoso de trabalho similar. Mas depois que morreram, a história tende a só se lembrar do mais famoso, infelizmente.
Oi Gi,
Creio que as injustiças do não-reconhecimento dos méritos de Rosalind Franklin e de César Lattes é culpa, em partes, da moça da foice, já que o prêmio Nobel não é concedido postumamente.
A Rosalind talvez tivesse dividido o prêmio com Crick e Watson em 1962 se não fosse o funesto azar dela ter falecido em 1958.
E outro dia vi uma entrevista do César Lattes comentando as razões de ter sido “tungado” duas vezes nas ocasiões em que não ganhou o prêmio Nobel. Numa delas, ele disse que o colaborador dele, com quem dividiria o prêmio, estava em estado terminal e provavelmente não viveria até a premiação. Subentende-se que a academia sueca preferiu não arriscar.
Pois é, Cris. A morte é um imprevisto e tanto… e me fez lembrar de uma vez que meu ex-orientador falou que viu uma palestra sobre como ganhar um Nobel. Uma das dicas dadas é que tinha que ter boa saúde para viver até os 100 anos… Oo. Não sei porque que o comitê espera a pessoa ficar tãããão velha para premiar!
[...] vol 6 – J. K. Rowling 78 – Harry Potter e as Relíquias da Morte vol 7 – J. K. Rowling 79 – Enigmas of chance – Mark Kac 80 – Inherit the stars – James P. Hogan 81 – Wyrms – Orson Scott Card 82 – O diário de [...]
Excelente post! Parabéns!
Eu já conhecia o efeito Mateus, até porque, por ser bibliotecária, sabia que esse fenômeno é muito usado na Bibliometria, para explicar o fato de revistas científicas internacionais (frequentemente anglo-saxônicas), publicadas em inglês e com alto fator de impacto, receberem mais artigos para publicação e mais citações, em detrimento das revistas oriundas de países periféricos, publicadas em outros idiomas que não o inglês e sem tanto prestígio internacional. A novidade foi o Efeito Matilda. Como alguém aí em cima disse, a gente até sabe que existe o fenômeno, só não conhece o nome.
Mas, sobre o Efeito Mateus, alvíssaras! Com o surgimento dos períódicos de acesso livre (e aqui cito a iniciativa da BIREME com o SciELO), já vemos mudanças significativas nessa situação restritiva. Sim, eppur si muove!
Falta resolver o Efeito Matilda – esse, ao meu ver, mais difícil, pois envolve uma cultura arraigada…
Puxa, Sibele, não sabia que esse efeito também era usado em bibliometria, valeu pela info!
Pois é, o outro efeito que você mencionou, ainda há um longo caminho para percorrer mesmo com as mulheres sendo quase metade das contribuições científicas em alguns campos.
Obrigada pela visita! (e pela info extra)
Giseli, este seu blog é ótimo … já favoritei, coloquei ele no meu “feeds” e pra terminar, estou lendo retraoativamente os posts dele agora.
Sobre este tema, em si, gostaria de te contar duas coisas:
1º) existe um outro matemático que também foi um dos pioneiros da Complexidade. Ele se chama Gregory Chaitin e é americano. Seus livros mais famosos no Brasil são “MetaMath: a conquista do Ômega” e “Conversas com um matemático”. É so vcs conferirem no google e na wikipedia …
2º) sobre o assunto propriamente dito em si, existe um livro muito bom chamado “Rivalidades Produtivas”, do divulgador inglês de ciência Michael White e lançado em 2003 no Brasil. Inacreditvelmente, ainda estou seco para ler [afffff...]; mas é uma boa sugestão de livro temático, né …
A seguir, links sobre ele nas revista Galileu e Veja:
Enfim, adeus e até a próxima …
Oi len, muito obrigada pela visita e pelo comentário!
Bom, você vai reparar que não tem posts desde junho ou julho desse ano hehe, mas ano que vem pretendo retomar, vamos ver 
Muito interessantes essas dicas, eu já tinha ouvido falar do Chaitin, mas ainda não li um livro dele. E vou ver esse aí sobre rivalidades.
Obrigada e até a próxima, espero que curta mais algum post! ^^
Vlw Gisele, continue com este blog supersingular …
Gisele, vc poderia citar também um outro autor mt brilhante e contemporâneo, sobre o efeito Mateus: o americano Malcom Gladwell.
Fica a dica …
Até a próxima … !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!