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Arquivo de novembro, 2009

Mitos do implante coclear

24, novembro, 2009 Giseli Ramos 12 comentários

Vez ou outra tenho que explicar de novo algumas coisas para as pessoas sobre o que o implante coclear não é. E também o que se deve esperar do implante nos primeiros meses após a ativação.

Pois bem, o processo de aprendizado e de adaptação leva vários meses, não é nas primeiras sessões com a fono que já vou aprender a tirar 100% de proveito do implante. O cérebro ainda tem que aprender o novo protocolo de comunicação entre o implante e a parte que processa a audição no cérebro.

Continuarei usando a leitura labial sim, principalmente em ambientes barulhentos, mas é claro que o input extra de sons vai ajudar na compreensão, com o tempo.

Quando estava pesquisando para pegar a fonte de que implantes cocleares não tornam a pessoa um pára-raios ambulante, me deparei com um texto bem interessante sobre o que o implante coclear é e o que não é. Inspirada pelo texto, vou destacar os pontos sobre o que o implante coclear NÃO é:

  • O implante coclear não te transforma em um morcego com audição aguçada ou na Mulher Biônica (ou Terminator), ouvindo o silvo de cobras a 500 metros.
  • O implante não cura e nem “arruma” a surdez! Apenas fornecem uma maneira de perceber os sons. Quando se desliga o implante, não se ouve sons.
  • A habilidade de localizar os sons não se aprende da noite pro dia.
  • O implantado não se torna um pára-raios ambulante. NÃO mesmo! Então não precisam ficar fazendo notas mentais do tipo: “em tempestades, ficar longe da Gi” como um amigo meu me disse :P Claro que se eu estiver no alto de uma torre segurando uma haste de metal e berrando loucamente para os raios, podem ficar longe. Mas não vai ser por causa do implante não. Trovoadas podem dar ligeiras interferências eletromagnéticas, mas nada que um desligamento temporário do implante não resolva, até passar.
  • Vocês vão ter que continuar repetindo coisas para mim. Tá, vou falar menos “hein?” e a compreensão vai melhorar com o tempo, mas não terei audição cristalina como as águas do Pacífico…
  • Não tenho entrada USB nem outro tipo de plug no implante. A parte externa do implante se fixa à parte interna por meio de um ímã. E se comunicam por ondas rádio. Sem sangue e nem tomadas à la Matrix no meio.
  • Os eletrodos do implante coclear ficam na cóclea, parte do ouvido interno. E é só, não tem fiozinhos no cérebro (quem me dera…).
  • Eu sou desastrada por natureza. Mas eu já era, antes de fazer o implante :) Então, fazer o implante não afeta o sistema de equilíbrio (temporariamente logo após a cirurgia pode até ser verdade) e não faz as pessoas serem mais desastradas. E caso o equilíbrio seja afetado, são exceções à regra.
  • O implante coclear não vai impedir a prática de atividades esportivas. Tá, esportes como ninjustu ou outros que envolvam pancadas diretas na cabeça não são recomendáveis. Mas são poucos os esportes a se evitar oras. E correr é um ótimo exercício!

Enfim, espero ter ajudado a esclarecer a cabeça de algumas pessoas com esse post. Sugestões e correções são bem-vindas.

Finalizando, cada implantado tem uma experiência diferente, única, portanto, difícil de reproduzir :)

Fontes:
Cochlear Implants: Myths and Realities
What a Cochlear Implant is NOT and what it IS

A hipótese de Riemann

18, novembro, 2009 Giseli Ramos 9 comentários

Hoje, nas minhas andanças pela web, descobri que hoje se comemoram os 150 anos da Hipótese de Riemann! Ela foi formulada pela primeira vez em 1859, em novembro, mas ninguém sabe a data exata. Então, o American Institute of Mathematics tradicionalmente pega o “meio” de novembro, para marcar a ocasião.

Eu não quis deixar essa data passar em branco, justamente porque teve uma época em que fiquei fascinada pelo problema (e pensei seriamente em seguir carreira matemática só para resolver o problema). Então, vou reaproveitar um texto do meu antigo blog e reproduzí-lo abaixo. Divirtam-se! :)

O livro “A música dos números primos”, do autor Marcus du Sautoy, é bem saboroso para quem gosta de matemática. Conta a saga da hipótese de Riemann e seus números primos, desde sua formulação inicial por Riemann até os dias atuais (na verdade também conta um pouco sobre os primeiros povos que descobriram as propriedades interessantes desses números).

Os números primos são, de fato, os bichos mais interessantes da fauna matemática. As partículas elementares da matemática, pois são indivisíveis, e compõem o resto dos números inteiros. E sua característica mais peculiar é o fato de que não tem como, pelo menos até o momento, prever o próximo número da sequência. Desde a Antiguidade até os dias atuais, os matemáticos têm lidado com a tarefa de tentar prever o próximo número primo. Será que a Natureza joga dados com os números, assim como Deus joga?

Para Riemann, há uma grande orquestra em andamento no domínio desses números. Isso significa que, muito possivelmente, há uma ordem implícita na aparente caótica sequência dos primos. Riemann encontrou em uma função particular chamada de função zeta (uma função com valores imaginários e reais, veja abaixo), escrita inicialmente por Euler, a chave que levaria aos segredos dos números primos. Essa função gera uma paisagem imaginária interessante em que os pontos ao nível do mar (ou seja, em y=0) são espaçados de forma harmônica e alinhados ao longo de uma reta. E esses pontos poderiam ser correlacionados com os primos.

Função Zeta de Riemann

Função Zeta de Riemann

Daí veio a formulação da hipótese de Riemann: todos os pontos ao nível do mar se encontram nessa linha, chamada de linha crítica da função zeta. E a prova da hipótese é provar que absolutamente TODOS os pontos estão nessa linha. Se for encontrado um ponto fora dessa linha, a hipótese será considerada falsa.
Bom, então, quem conseguir provar essa hipótese ganha um milhão de dólares do Instituto Clay de Matemática e a imortalidade matemática. Se verdadeira, explicaria bem porque que não há um padrão forte na sequência dos primos.

Qual seria a utilidade prática da teoria dos números? Está bem na sua frente, na Internet. Os números primos são essenciais para os algoritmos de criptografia usados nos protocolos seguros da rede, já que as chaves públicas são o resultado de um produto entre dois números primos grandes. E fatorar um produto desses é tarefa inviável computacionalmente para os computadores atuais (mas não para os futuros computadores quânticos, eu creio…).

É fato sabido de que a Natureza tem predileção por certos tipos de números, como o fato de o número de pétalas de uma flor ser sempre um número da sequência de Fibonacci. No livro, é descrito que o ciclo de vida de um certo inseto é sempre um número primo, para poder escapar de um predador. Grande parte de suas vidas é gasta na forma larval e só emerge depois de 13 ou 17 anos. E após sua saída dos casulos, morrem algumas semanas depois. Acredita-se que esses intervalos entre essas emergências dificultam a ação dos predadores.

Se interessou? Vai lá dar uma olhada no livro :) A linguagem é acessível para os leigos, mas deve ser uma leitura lenta e atenta.

Para saber mais e explorar um pouco esse ramo da fauna matemática, dê uma olhada nas referências abaixo. :D

Referências e informações adicionais:

The Prime Pages – Site com informações e um banco de dados dos maiores números primos conhecidos
Prime Conjectures and Open Questions – Uma lista de algumas conjecturas na teoria dos números
The prime number lottery – Parte 1 do resumo do livro
The music of the primes – Parte 2 do resumo do livro
Prime number – Artigo da Wikipedia
Riemann Hypothesis – Site do Clay Institute

Os dias da peste

16, novembro, 2009 Giseli Ramos 2 comentários

Ontem terminei de ler mais um livro bacana de ficção científica brasileira, o “Os dias da peste“, do Fábio Fernandes.
É um livro bem legal, uma verdadeira aula de história da computação e permeado de referências.
A trama se passa num Rio de Janeiro/São Paulo cyberpunk, onde a computação é onipresente e ubíqua e conta como as inteligências artificiais adquiriram consciência. O livro expressa bem a grande dependência que temos da tecnologia e também conta a história dos pós-humanos (algo a ver com humanos aprimorados pela tecnologia).

Gostei bastante do livro, o autor não deixa escapar nenhum conceito e quem não entende lhufas de computação não se sentirá muito perdido no livro. Mas vai ficar perdido de outra forma, com a grande quantidade de referências a autores, principalmente os obscuros.

Por um lado as referências expandem os horizontes, já que permite conhecer mais a fundo conceitos e autores que não conheceria de outra forma, mas por outro lado, é meio cansativo tentar fisgar, pesquisar e buscar entender a função de certas coisas mencionadas no texto.

Achei engraçadas algumas coisas no texto, como algumas notas de rodapé. Mas admito que tenho uma pequena crítica a isso, não vou comentar, senão vai ser spoiler.

De toda maneira, o livro é altamente recomendável e muito bom, a leitura é fluida, apesar dos pontos que citei acima. Bem que eu tava sentindo falta de ler coisas cyberpunks-pós-humanas à brasileira mesmo!

Meus parabéns ao Fábio Fernandes por finalmente ter lançado seu primeiro livro! Pra variar, um livro bom! :)

PS: Você pode ler uma amostra do livro aqui.

TEDxSP – eu fui! =D

15, novembro, 2009 Giseli Ramos 4 comentários

Em geral, quando vou a eventos, tendo a não criar altas expectativas e aproveito para tirar proveito, conversando com as pessoas presentes. Pois bem, sabe quando tu vai num evento formidável que quebrou todas as suas mais altas expectativas? E ainda não consegue dar conta de conversar com tantas pessoas? Esse foi o TEDxSP!

Saí de lá ainda tentando organizar minha mente, de tantas impressões e tantas inspirações que senti não só em mim, como também nas pessoas ao redor. Usar as palavras formidável, fantástico e outras não vai ser suficiente. Agora, chega de papo e vamos ao que interessa.

Primeiro, sobre a parte musical (um ótimo exercício para meu recém-ativado implante coclear =D):

  • O evento começou muitíssimo bem com uma apresentação de piano do virtuose de 20 anos, Vítor Araújo. Ele não fica só nos elementos clássicos, adiciona referências desde música popular até rock!
  • Teve também a bela apresentação feita por Jarbas Agnelli, cuja música foi baseada em uma imagem de pássaros postados num poste. Veja aqui a apresentação.
  • Ainda teve uma apresentação de Thalma de Freitas de seu novo projeto Amor Imenso, muito bacana!
  • E o evento fechou com chave de ouro com mais uma performance no piano de Rannieri Oliveira. Fantástico ouvir piano ao vivo, sabia?

Agora, quanto às palestras… bom, foram 30! Não vou conseguir mencionar todas, só citarei algumas e o resto você verá nos links que indicarei =)

Meu lado computeiro gostou muito desse projeto apresentado por Fernanda Viégas, o Many Eyes. E ainda no âmbito de ferramentas na rede, tem o projeto Marco Civil, que visa a ser a primeira lei colaborativa e aberta a discussões, para regulamentar a internet. E o projeto Vote na Web, onde você vota nas leis que afetam diretamente sua vida.

Teve algumas apresentações de cientistas, como a do biólogo Sandro de Souza, sobre bioinformática e o quão o Brasil é bom nessa área e da química Milena Boniolo, que ganhou merecidamente o prêmio de jovem cientista de 2006 pelo CNPq, pelo seu estudo de descontaminação de água usando casca de banana (impressionante!).

A palestra de Regina Casé foi bem bacana, sobre seu projeto Central de Periferia. Ainda sobre brasileiros criativos, Flavio Deslandes criou uma bicicleta de bambu. Pô, eu quero uma! =D

Adozinda Kuhlmann mostrou muito vigor na suas quadrinhas, mesmo com 92 anos. E que história, hein?

Augusto de Franco falou sobre as redes (apresentação aqui). E sobre material de apresentação, tem a do Luiz Algarra aqui.

Ufs, é um bocado de coisas, e todos os palestrantes foram impressionantes à sua maneira, então dêem um pulinho nos links abaixo:
Sur10 no TEDxSP
KC no TEDxSP
Brainstorm9 (tem vídeos das apresentações)
Afinal, o que foi o TEDxSP?

E acompanhe tudo o que acontece no Twitter sobre o evento, agrupado num lugar só aqui.

Certamente, material sobre o evento não faltará. Nos próximos dias as palestras estarão disponibilizadas no site oficial. Meus parabéns mesmo à organização!

Para finalizar, vi no blog do André Nogueira uma frase do Casey Caplowe (que também apresentou) que resume muito bem o que sentimos: Não basta ser perfeito. Você precisa ser incrível. Veja essa imagem da revista Good e pensa um pouco =)

Bom, minha mente já não é mais a mesma depois desse evento. Queria ter escrito mais, mas agora o negócio é começar a fazer as coisas e não só falar :D

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Carl Sagan

9, novembro, 2009 Giseli Ramos 6 comentários

Hoje é o dia que Carl Sagan faria 75 anos. Ele certamente foi um dos cientistas mais importantes do século 20 e cuja falta nesse mundo assombrado pelos demônios é sentida. Já li vários livros dele e posso dizer que boa parte de minha formação científica foi graças a ele. Afinal, devemos ter um pensamento crítico e ter uma sede de conhecimento, não?

Bem que gostaria de falar mais do Sagan, mas chega de papo e indico a vocês um excelente post sobre Sagan feito por Kentaro Mori do CeticismoAberto.

Enjoy! E que Sagan esteja em paz vislumbrando nosso pálido ponto azul…

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