Acabei de ler esses dias um livro muito bacana, o “Uma senhora toma chá… – como a estatística revolucionou a ciência no século XX”, de David Salsburg.
O autor consegue a proeza de traçar um panorama da história da estatística até o final do século XX de maneira bem agradável, com exemplos de aplicações até os dias atuais, além de falar de alguns cientistas, alguns humildes e outros com ego grande, tramas com estatísticos trabalhando com a cervejaria Guiness e outras sobre preconceitos sexuais com as mulheres na estatística. É bom tanto para os iniciados na área como para os não-iniciados, que nem precisam ter profundo background matemático.
Tem várias personalidades, como R. A. Fisher (estranhamente, confundo-o com Bob Fisher de vez em quando…) e A. N. Kolmogorov (um de meus matemáticos prediletos, merecidamente um Mozart da matemática). Mas o que achei legal mesmo é o destaque que o autor deu às mulheres na história da estatística. Eu não sabia que a enfermeira Florence Nightingale era uma boa estatística! Melhor ainda, ela inspirou um casal amigo dela a dar o nome Florence Nightingale David à filha do casal. Pois é, existem duas Florences Nightingales! F.N. David trabalhou por uns tempos com o eminente estatístico Karl Pearson, que também está no livro. Na real, o nome original do cara era Carl, mas mudou-o para Karl, em homenagem a Karl Marx. O_o
A guria também escreveu um livro interessante sobre probabilidade, o “Games, Gods and Gambling”, um misto de autobiografia com história. Vou dar uma olhada nesse livro também
Outra coisa interessante que aprendi do livro é a chamada “lei da misonomia de Stigler” ou “lei da eponimia de Stigler”. O que diabos significa? O enunciado da lei seria:
Nenhuma coisa na ciência leva o nome da pessoa que a descobriu.
Eu não diria que TUDO na ciência e em matemática segue essa lei, mas realmente há exemplos abundantes. Para começar, com a própria lei:
- Lei de Stigler: Stephen Stigler diz que a lei foi enunciada pelo sociólogo Robert K. Merton.
- Distribuição gaussiana (normal): Dizem que foi Gauss que descobriu isso. Mas foi Abraham de Moivre quem escreveu primeiro a fórmula. Há alguns comentários na literatura de que Daniel Bernoulli tenha a escrito, mas não é unanimidade.
- Distribuição de Poisson: Poisson escreveu sobre essa distribuição, mas novamente, a distribuição foi descrita anteriormente por um dos Bernoulli.
- Mal de Alzhemier: É verdade que foi descrita por Alois Alzhemier, mas outros já faziam descrições dessa doença.
- Algarismos arábicos: Deviam ser chamados de algarismos indianos ou hindu, afinal, foram inventados na Índia! Vez ou outra, os chamam de indo-arábicos…
E há vários outros exemplos…
Não é simplesmente mais um livro sobre a história da estatística. Diria até que foi o melhor que li até agora. Tem outro que fiz breves comentários, o “Enigmas of Chance” de Mark Kac, mas o “Uma senhora toma chá…” ganha de longe! Recomendadíssimo!


Deveras interessante Gi.
Depois do Malba Tahan e o Homem que calculava, na minha infância,
nada como as ponderações de uma AI biológica para manter meu interesse em matemática.
E olha que estatística. enquanto antropólogo, não desce bem. Mesmo assim adorei o post.
Obrigada, Demian! Em breve, aguarde umas dicas das leituras de 2009 =)
Tá certo que sou leiga, mas lembro de umas certas “Leis de Newton”… rs!
Ah, eu acho que tu ia curtir a história! É mais background histórico e quase nada de cálculos =)
Pingback: CyberGi » Lista de leituras de 2009
Background histórico rocks!
Mila, tu ia curtir esse livro, viu! =)
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Gisele,
Este post me fez lembrar de minha adolescência, quando eu descobri Stigler…
Tenho o livro, ele é muito divertido!!!
É curioso esta relação do Chá e da Matemática na literatura!
Digo isto, porque este título me lembra o livro “O universo e a xícara de chá – a matemática da verdade e da beleza”, um livro muito instigante.
Alberto, de fato, parece que os matemáticos têm uma relação especial com o chá… vai ver, faz parte da rotina tanto quanto o café faz parte da alimentação do programador hehe.