Todo esse alvoroço sobre as usinas nucleares do Japão me fez lembrar de um dos meus tópicos prediletos das aulas de física do colegial e graduação, física nuclear. Afinal, é fascinante como um átomo pode liberar tanta energia e algumas partículas pelo caminho com uma fissão e mais ainda com uma fusão…
No meu passeio diário pelo Google Reader, achei alguns links relativos ao assunto que valem a lida:
– Resumo bem sucinto de física nuclear, para dummies, com conceitos importantes como a meia-vida, doses de radiação, unidades e efeitos biológicos da radiação.
– Interessante saber que a banana tem 0,01% de potássio-40, radioativo.
– Um gráfico informativo sobre as doses equivalentes de radiação. Bem útil para saber se a situação é de excesso de alarmismo ou confiança demais.
Não é bacana o mapa acima? É um mapa de neutrinos (incompleto) feito pelo observatório , localizado na Antártida.
O IceCube é um observatório em construção na Antártida, e seu objetivo é a busca pelos elusivos neutrinos, que podem vir de qualquer lugar do Universo, desde uma explosão de uma estrela, erupções de raios gama até buracos negros.
Os são produzidos pelo decaimento de partículas elementares (como os ) e elementos radioativos. Mas são extremamente antissociais e difíceis de serem detectados. Essa propriedade é útil, pois atravessam qualquer matéria, desde os confins do Universo até chegarem na Terra (e passarem por nós ilesos). E levam informações úteis, como o início de supernovas. Por mais espetacular que sejam as supernovas no espectro óptico que vimos por aí, perdemos grande parte da informação do colapso, pois 99% da energia total emitida no colapso são de neutrinos.
Não vou me estender em explicações, afinal, achei tão bacana o mapa de neutrinos do Universo (que lembra muito o mapa de radiação cósmica de fundo) que merecia ser compartilhado. Sugiro explorarem com calma o ótimo site do , cheio de explicações e de material multimídia. E na Scientific American brasileira do mês de junho de 2010 ou na americana de maio de 2010, tem uma matéria bacana sobre a utilidade dos neutrinos para a astronomia, sendo que o IceCube é um dos observatórios mais bem cotados para a vindoura era de ouro da astronomia de neutrinos.
Só para finalizar, fiquei impressionada com o tamanho do observatório no polo sul. Veja a imagem abaixo, retirada do site do projeto:
Esquemático do IceCube
Alguém duvida que daí pode sair um Nobel, quando terminarem o observatório e começarem a analisar os dados?
Um dos motivos de eu adorar a biblioteca da universidade é que em meus frequentes passeios por ela, sempre me deparo com livros que, de outro modo eu nem ia saber ou demoraria mais ainda a ler. Tem uma seção na biblioteca dedicada a biografias de matemáticos e foi numa dessas passagens que peguei uma autobiografia de , o “Enigmas of Chance”.
Kac foi um matemático polonês que emigrou aos EUA pouco antes da invasão da Polônia pela Alemanha nazista. Foi bastante ativo na área de probabilidade e estatística e trabalhou com vários matemáticos eminentes, entre eles, .
Apesar de não achar tão cativante quanto a biografia “The Man who loved only numbers” (sobre Paul Erdös), o livro do Kac tem seus méritos, já que acabei aprendendo algumas coisas aqui e acolá.
Uma que achei interessante é o efeito Mateus (em inglês, ), termo cunhado por Robert Merton, que descreve a tendência de cientistas famosos obterem mais crédito do que deveriam que cientistas não tão famosos, por trabalhos similares. Isso não é novidade, eu só não sabia que tinha um nome.
O nome vem do versículo Mateus 25:29:
“Porque a todo o que tem, dar-se-lhe-á, e terá em abundância; mas ao que não tem, até aquilo que tem ser-lhe-á tirado.”
Kac mencionou o estudo de , que descreveu o movimento browniano. Outro cientista, Albert Einstein, também explicou o fenômeno, de maneira diferente. Não é nenhuma surpresa que hoje pouca gente saiba disso e o crédito ser atribuído geralmente só a Einstein.
Outro exemplo que vi, desta vez na Wikipedia, é a noção de (basicamente, qual o menor recurso computacional necessário para descrever algum objeto – veja mais no verbete da Wikipedia). Ray é que formalizou essa noção, consequência de seus estudos na teoria de probabilidade algorítmica. chegou às mesmas ideias pouco depois de Solomonoff.
Sem contar que, a , é atribuído o título de “pai do computador”. De fato, vários de seus estudos revolucionaram e ajudaram a impulsionar a teoria da computação e de informação. Mas é injusto atribuir créditos apenas a ele, alguns de seus estudos também tinham ideias expandidas de outros colaboradores. Mesma coisa com a teoria dos jogos, poucos se lembram de , que escreveu em conjunto com von Neumann o livro que inaugurou oficialmente a teoria dos jogos na matemática.
Eu resolvi pesquisar para ver se não era o caso de (um dos descobridores do ) e de (que também decifrou a estrutura correta do DNA). O primeiro caso, de Lattes, foi mais pelas regras injustas do comitê Nobel, que até 1960 só premiava o líder de pesquisa do grupo.
E o segundo caso, de Rosalind Franklin, me levou a conhecer o corolário do efeito Mateus, o . Primeiro, deixe-me dizer o que significa corolário: é a consequência imediata de um teorema ou postulado, nesse caso, o efeito Mateus.
Cunhado pela historiadora científica Margaret Rossiter, por causa de Matilda Gage (que experimentou “em primeira mão” o efeito), identifica a situação em que mulheres cientistas recebem pouco ou nenhum crédito pelo seu trabalho científico.
Esses são só alguns dos exemplos. E assim segue a história da ciência… Parece que hoje a situação melhorou bastante, mas ainda tem o que melhorar. O futuro nos dirá.