nov 212010
 

Um comentário sobre sinestesia feito pelo André T. (valeu pela dica!) no post anterior me fez lembrar de uma coisa que aconteceu por alguns dias logo após a ativação do meu implante. Bom, o que acontecia exatamente? Como a cóclea está do lado de alguns nervos, quando ela começou a ser estimulada, de alguma maneira esquisita (meus conhecimentos de anatomia não são bons) acho que alguma coisa responsável pelo processamento da visão também era ligeiramente afetada, o que induzia a uma leve sensação de sinestesia, ou seja, toda vez que eu ouvia algo, meu campo visual ficava ligeiramente esquisito e brilhante. Mas foi coisa de poucos dias, logo depois acho que meu hardware se acostumou às novas condições e viu que ouvir não era bem a mesma coisa que “enxergar” o som.

Semana retrasada, fui fazer minha programação de rotina do implante coclear. É importante ao implantado retornar a cada 6 meses para ver como estão as coisas com seu bichinho de estimação de silício e fazer uns testes. Em certo momento, nos ajustes que a fonoaudióloga estava fazendo, o processador de fala do implante processava os sons num nível absurdamente alto, mas tão alto que toda vez que eu ouvia um som, fazia mexer os músculos do lado esquerdo da minha face e um puxão no meu olho esquerdo. O que NÃO é bom, pois está ocorrendo estimulação excessiva na cóclea e consequentemente em toda a “fiação” que passa perto dos eletrodos na cóclea, inclusive no nervo facial. Para ter uma ideia de o quão perto o nervo facial fica da cóclea, dê uma olhada na figura abaixo:

Nervos nas proximidades da cóclea

Nervos nas proximidades da cóclea

A figura é relativamente antiga, mas mostra no lugar certo onde ficam os nervos faciais e acústicos (praticamente um colado no outro nas proximidades da cóclea). Deu para sentir o drama né? Claro que foram refeitos ajustes para não ocorrer isso novamente. O objetivo do implante é fornecer um meio de conseguir me virar com os estímulos sonoros no mundo. Antes eu achava que era para botar no último volume, mas descobri que não necessariamente. Desde que o som seja de qualidade e inteligível e sem estimular outros nervos que não têm nada a ver com os sons, está de bom tamanho :)

nov 172010
 

Sempre gostei das equações do eletromagnetismo, criadas por Maxwell. Tá, apesar de apanhar muito dessas equações na graduação, as amo do mesmo jeito. Para quem não sabe do que estou falando… bom, duas versões. Resumida: são um conjunto de quatro equações que essencialmente explicam tanto os fenômenos elétricos como os magnéticos e esses dois fenômenos estão relacionados (por isso a palavra eletromagnetismo).
A outra versão, minha predileta, a matemática:

 $\nabla \cdot \mathbf{D} = \rho \\ \nabla \cdot \mathbf{B} = 0 \\ \nabla \times \mathbf{E} = -\frac{\partial \mathbf{B}} {\partial t} \\ \nabla \times \mathbf{H} = \mathbf{J} + \frac{\partial \mathbf{D}} {\partial t}$

Bom, indo direto ao que eu queria falar… Um recurso muito útil para mim e para outros deficientes auditivos que portam aparelhos auditivos e implantes cocleares é o chamado modo T, abreviação de T-coil, ou em bom português, bobina de indução. É aí que o eletromagnetismo vem ajudar: é um fio da bobina que pega o campo magnético variável da parte do fone de ouvido do telefone/celular. É como se fosse um transformador em duas partes, metade no aparelho/implante e a outra no dispositivo no qual quero ouvir. Aí é fazer eles se acoplarem, diminuindo a distância entre eles.

A vantagem de usar esse modo é que não escuto o som do ambiente, apenas escuto o que o telefone transmitir. Como qualquer coisa sempre tem seu lado ruim, é que é muito sujeito a interferências eletromagnéticas de outros dispositivos.

Afinal, estamos rodeados de ondas eletromagnéticas de tudo quanto é canto, tanto do computador, da televisão, dos fios dos postes, das lâmpadas fluorescentes (sim, elas adoram meter o bedelho no meu aparelho), enfim, não vivemos sem eletricidade. Mas felizmente não é qualquer coisa que vá atrapalhar meu aparelho, só se certas condições forem satisfeitas. Pior é que não sei especificar que condições são essas, mas em geral, quando vou usar esse modo para falar ao telefone, não fico perto de: computadores desktop (notebooks não afetam, felizmente), máquinas de lavar, televisões (pelo menos as do tipo CRT) e outras coisas embutidas no ambiente. A universidade onde estou é uma “excelente” fonte de interferência EM de tanta tecnologia que tem que tenho que ir sempre para fora dos prédios para conseguir usar o telefone e ouvir algo ¬¬

E é por isso que não consigo falar ao telefone em qualquer lugar. Tipo, no metrô de SP (onde tem sinal de celular em algumas linhas). Putz, se eu botar no modo T no metrô… meu córtex auditivo (ou o que for responsável pelo som) enlouquece.

Há uma alternativa quando o ambiente impede o uso do modo T, é tentar ouvir na marra no modo “normal”, que é o modo padrão dos aparelhos e dos implantes, para pegar os sons dos ambientes. É sempre meu plano B, quando não há jeito.

Nas minhas rápidas pesquisas, descobri que alguns lugares oferecem acessibilidade ao deficiente, disponibilizando um tipo de “amplificador T-coil” no ambiente, onde ele pode ouvir o que for transmitido nesse ambiente, por exemplo, em alguns aeroportos dos EUA há esse dispositivo. Também tem em auditórios, teatros e em outros lugares, mas nunca testei nos teatros daqui. Pelo menos não vi aqui (ou não tô sabendo) de um lugar disponibilizando isso :( E quando disponibilizam, avisam com uma plaquinha tipo essa:

Deaf-friendly

Deaf-friendly

Apesar de não entender 100% do que as pessoas falam ao telefone (meu, telefone não é lugar para falar rápido), não deixo de usar o telefone e continuo treinando meu ouvido (agora posso usar o telefone dos dois lados). Bom, vou lá dar uma ligadinha…

PS: E se alguém ver a tal plaquinha aqui em SP ou em outro lugar, faz favor de avisar para eu ir testar? :D

jun 022010
 

Post rápido só para mencionar duas coisas:

1 – Não deixem de ver um vídeo muito bacana sobre a ativação de um implante coclear de um bebê. Muito bonitinho :) (vi no blog do Kentaro)

2 – Só um complemento com relação ao meu post anterior, sobre reflexões a respeito da segurança de ICs… Perguntei à fonoaudióloga Valéria Goffi como era a situação atual e ela me disse que o implante é protegido com algum tipo de criptografia das partes importantes, ou seja a transmissão por radio frequência só é feita codificada, e qualquer informação que passa tem que ter o “contato direto” com o processador, ou seja, através do cabo de programação. A informação por FM ou bluetooth só serve para captar informações, até pode gerar uma distorção no som, mas não corrompe mapas… é apenas uma questão de se afastar da fonte geradora da interferência.

Huh, então meu implante coclear tem criptografia RSA de 1026 bits? Pô, eu tinha uma chave PGP e não sabia!  :P

mai 262010
 

Uma notícia hoje me chamou muito a atenção, que era sobre um cientista britânico dizer que foi infectado por um vírus de computador. Em particular, o seguinte trecho:

Gasson admite que o teste apenas prova um princípio, mas ele acredita que existam implicações importantes para um futuro em que aparelhos médicos, como marcapassos e implantes cocleares

Implantes cocleares?! Tudo bem que o experimento é meio rudimentar demais e seria equivalente a engolir um disquete com vírus (alguém me disse isso), mas mesmo assim, dá margem a especulações interessantes sobre a segurança dos implantes médicos. Já li por aí que, teoricamente, é possível invadir um marcapasso. Agora vamos especular um pouco e tentar explorar falhas nos implantes cocleares com a tecnologia atual:

DISCLAIMER: O que vou falar a seguir tem grandes chances de ser ficção, afinal, são especulações e não tem nenhuma comprovação real. Então, caso você seja um implantado que parou por acaso por aqui, não entre em pânico, hein? Não precisa ir correndo pegar um antivírus :P

- Alguns modelos têm suporte a bluetooth, cujo uso “oficial” é para se usar em conjunto com um dispositivo de microfone bluetooth também. Mas se alguém interceptar a comunicação e “fingir” que é um microfone…. Sei lá, alguém pode tirar proveito disso?

- Supondo que alguém tenha acesso ao implante coclear, na pior das hipóteses, vai corromper o programa de DSP, você pode não ouvir nada direito.

- Tem uma coisa que pode ser muito muito ruim: em geral, os programas DSP do implante são ajustados para ligarem até 12 eletrodos simultaneamente. A maioria dos implantes tem 22 eletrodos, então sempre se escolhe até 12 eletrodos por ciclo. A fono me disse que mais do que 12 eletrodos ao mesmo tempo pode deixar desorientada a pessoa ou até deixar dolorida a audição, deixando-a sobrecarregada. Vai que o vírus queira botar mais do que 12 eletrodos ao mesmo tempo?

Isso são “teorias tiradas do nada”, com base no que sei sobre ICs. Mas é legal fazer brainstorm e ir se prevenindo. Se alguém quiser me indicar já um antivírus…

Especulações à parte, claro que os implantados estão seguros de verdade, pois a única maneira de acessar o IC é por um cabo especial que a fonoaudióloga do mapeamento tem. Agora se o computador do mapeamento estiver infectado…. :P

fev 072010
 

Esses dias fiz outro mapeamento dos eletrodos do meu implante coclear (basicamente são ajustes na ativação dos eletrodos e sua intensidade de acordo com a frequência) e ainda aproveitei para fazer a audiometria com o implante ligado. Subjetivamente, eu já notei a diferença, mas foi bem gratificante ver numericamente o ganho auditivo! =D Sem mais enrolações, uma foto da minha audiometria do ouvido esquerdo (meio borrada, é verdade):

O que está em azul indica minha audição antes do implante e o que está em verde, com o implante ligado, depois de 4 meses. Quatro meses e já tudo isso! Já dá para notar a diferença, hein?

Para os desavisados, uma breve explicação sobre audiometria. Não faz muito sentido alguém me lançar a seguinte pergunta “quanto por cento de perda auditiva?”. As perdas são diferentes para cada frequência e a audiometria mede justamente o quão alto tem que ser um som em tal frequência (tom puro) para ser identificado pelo sistema auditivo. A imagem seguinte é auto-explicativa (assim espero):

Audiometria

Audiometria

Fonte da imagem: Wikipedia

Get it? Quem tem a audição dita normal/intacta ouve na faixa de 10-20 dB (quanto menor o valor em dB, é melhor a audição). E as frequências da fala humana se situam entre 250 Hz e 2000 Hz, que são as que mais importam.

Na prática, já posso dizer que escuto bastante. Mas notem que há uma grande diferença entre escutar e entender. Já cheguei na parte do “escutar”, mas para entender, ainda tenho um bocado para aprender ^^ Mesma coisa que acabar parando num país estrangeiro sem falar a língua local. O importante é que tô chegando lá e tenho certeza de que vai melhorar! :D