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Os dias da peste

16, novembro, 2009 Giseli Ramos 2 comentários

Ontem terminei de ler mais um livro bacana de ficção científica brasileira, o “Os dias da peste“, do Fábio Fernandes.
É um livro bem legal, uma verdadeira aula de história da computação e permeado de referências.
A trama se passa num Rio de Janeiro/São Paulo cyberpunk, onde a computação é onipresente e ubíqua e conta como as inteligências artificiais adquiriram consciência. O livro expressa bem a grande dependência que temos da tecnologia e também conta a história dos pós-humanos (algo a ver com humanos aprimorados pela tecnologia).

Gostei bastante do livro, o autor não deixa escapar nenhum conceito e quem não entende lhufas de computação não se sentirá muito perdido no livro. Mas vai ficar perdido de outra forma, com a grande quantidade de referências a autores, principalmente os obscuros.

Por um lado as referências expandem os horizontes, já que permite conhecer mais a fundo conceitos e autores que não conheceria de outra forma, mas por outro lado, é meio cansativo tentar fisgar, pesquisar e buscar entender a função de certas coisas mencionadas no texto.

Achei engraçadas algumas coisas no texto, como algumas notas de rodapé. Mas admito que tenho uma pequena crítica a isso, não vou comentar, senão vai ser spoiler.

De toda maneira, o livro é altamente recomendável e muito bom, a leitura é fluida, apesar dos pontos que citei acima. Bem que eu tava sentindo falta de ler coisas cyberpunks-pós-humanas à brasileira mesmo!

Meus parabéns ao Fábio Fernandes por finalmente ter lançado seu primeiro livro! Pra variar, um livro bom! :)

PS: Você pode ler uma amostra do livro aqui.

O efeito Mateus na ciência

1, setembro, 2009 Giseli Ramos 10 comentários

Um dos motivos de eu adorar a biblioteca da universidade é que em meus frequentes passeios por ela, sempre me deparo com livros que, de outro modo eu nem ia saber ou demoraria mais ainda a ler. Tem uma seção na biblioteca dedicada a biografias de matemáticos e foi numa dessas passagens que peguei uma autobiografia de Mark Kac, o “Enigmas of Chance”.

Kac foi um matemático polonês que emigrou aos EUA pouco antes da invasão da Polônia pela Alemanha nazista. Foi bastante ativo na área de probabilidade e estatística e trabalhou com vários matemáticos eminentes, entre eles, Erdös.

Apesar de não achar tão cativante quanto a biografia “The Man who loved only numbers” (sobre Paul Erdös), o livro do Kac tem seus méritos, já que acabei aprendendo algumas coisas aqui e acolá.

Uma que achei interessante é o efeito Mateus (em inglês, Matthew effect), termo cunhado por Robert Merton, que descreve a tendência de cientistas famosos obterem mais crédito do que deveriam que cientistas não tão famosos, por trabalhos similares. Isso não é novidade, eu só não sabia que tinha um nome.

O nome vem do versículo Mateus 25:29:
Porque a todo o que tem, dar-se-lhe-á, e terá em abundância; mas ao que não tem, até aquilo que tem ser-lhe-á tirado.

Kac mencionou o estudo de Marian Smoluchowski, que descreveu o movimento browniano. Outro cientista, Albert Einstein, também explicou o fenômeno, de maneira diferente. Não é nenhuma surpresa que hoje pouca gente saiba disso e o crédito ser atribuído geralmente só a Einstein.

Outro exemplo que vi, desta vez na Wikipedia, é a noção de complexidade de Kolmogorov (basicamente, qual o menor recurso computacional necessário para descrever algum objeto – veja mais no verbete da Wikipedia). Ray Solomonoff é que formalizou essa noção, consequência de seus estudos na teoria de probabilidade algorítmica. Kolmogorov chegou às mesmas ideias pouco depois de Solomonoff.

Sem contar que, a von Neumann, é atribuído o título de “pai do computador”. De fato, vários de seus estudos revolucionaram e ajudaram a impulsionar a teoria da computação e de informação. Mas é injusto atribuir créditos apenas a ele, alguns de seus estudos também tinham ideias expandidas de outros colaboradores. Mesma coisa com a teoria dos jogos, poucos se lembram de Oskar Morgenstern, que escreveu em conjunto com von Neumann o livro que inaugurou oficialmente a teoria dos jogos na matemática.

Eu resolvi pesquisar para ver se não era o caso de César Lattes (um dos descobridores do méson-pi) e de Rosalind Franklin (que também decifrou a estrutura correta do DNA). O primeiro caso, de Lattes, foi mais pelas regras injustas do comitê Nobel, que até 1960 só premiava o líder de pesquisa do grupo.

E o segundo caso, de Rosalind Franklin, me levou a conhecer o corolário do efeito Mateus, o efeito Matilda. Primeiro, deixe-me dizer o que significa corolário: é a consequência imediata de um teorema ou postulado, nesse caso, o efeito Mateus.
Cunhado pela historiadora científica Margaret Rossiter, por causa de Matilda Gage (que experimentou “em primeira mão” o efeito), identifica a situação em que mulheres cientistas recebem pouco ou nenhum crédito pelo seu trabalho científico.

Esses são só alguns dos exemplos. E assim segue a história da ciência… Parece que hoje a situação melhorou bastante, mas ainda tem o que melhorar. O futuro nos dirá.

Ver mais:
Mark Kac on education, physics and mathematics
Biografia de Mark Kac no MacTutor

Fonte do trecho bíblico aqui.

Todas as Guerras

4, agosto, 2009 Giseli Ramos 3 comentários

Realmente estamos ficando bem servidos de coletâneas brasileiras bacanas, como a Steampunk e a série Paradigmas =) Agora tem outra na área, o Todas as Guerras. Por ora, só tem o primeiro volume, mas há previsão de lançarem outros (espero!).

A coletânea é bem interessante, com 10 autores cada um cuidando de uma guerra particular. Gostei de alguns dos contos, são legais e instigantes, posso ser suspeita para falar, pelo fato de curtir história militar, mas realmente alguns se destacam.

Comentários rápidos sobre cada um dos contos:

Cruzada – Luiz Bras – Um conto duca sobre alguns acontecimentos inusitados dentro de Jerusalém, cercada pelos sarracenos. O final é impressionante!

O Soldado Francês – Carlos Herculano Lopes – Sobre as angústias (é realmente angustiante) e tribulações de um soldado na guerra dos Cem Anos.

2035 – Veronica Stigger – Um insight um tanto inusitado e confuso do impacto que uma guerra do passado teve no futuro. Achei interessante mostrar no futuro as consequências da Farroupilha, mas achei um pouco difícil de ler, porque não consigo relacionar com o que houve no passado.

O Diabo em Sobremarcha – Pedro Salgueiro – Conta os “causos” de um soldado da Guerra da Secessão, bem interessante. E só lendo para saber se são fatos inventados pelo soldado ou não.

Dos diários de um homem comum – Miguel Sanches Neto – Um olhar sobre um diário de um soldado da Guerra do Paraguai. Gostei do modo como ele contou coisas insignificantes e banais para nós mas muito significativas para um soldado.

Às margens do Belo Monte – Aleilton Fonseca – Bacana conto sobre um investigador (jornalista?) em busca de relatos e novas histórias sobre a Guerra de Canudos.

Tudo de Novo no Front – Fábio Fernandes – Eu diria que esse conto é um dos meus preferidos da antologia. Simplesmente fantástica essa história alternativa sobre a Primeira Guerra Mundial! Não é à toa que os contos do autor são bons =) Fala sobre um cabo no front alemão e… bem, só lendo mesmo para saber como a trama se desenrola.

Das Cinzas – Cristina Lasaitis – Outro destaque bacana da coletânea, sobre a segunda guerra mundial, mais especificamente sobre uma vida afetada pela bomba atômica. Tem um jeito ímpar de narrar e uma maestria no uso da linguagem. Tudo bem que fiquei com alguns nós mentais durante a leitura mas gostei da perspectiva diferente.

O Fosso – Ana Paula Maia – Um relato do front com todo o jeito de ser verdadeiro sobre as insanidades da guerra do Vietnã. Uma espécie light de Apocalypse Now?

O Amor entre Nós – Edyr Augusto – Interessante ponto de vista sobre a guerra da Palestina. Mas admito que ficou um pouco confuso em algumas partes, quando aparecem vários narradores de uma vez. Curti o final.

Alguns dos contos foram meio confusos. Talvez seja porque esteja se passando em uma guerra onde realmente tudo é confuso e as pessoas não conseguem relatar direitinho seus pensamentos. Só acho que alguns dos autores deviam ter tomado cuidado para não fazer o leitor perder o fio da meada.

De qualquer modo, gostei bastante da coletânea. A capa ficou bem legal e a apresentação também. Pode ser adquirida nas principais livrarias (em quase toda que vou, sempre me deparo com a coletânea).

Agora no aguardo de novas guerras (me refiro aos próximos volumes, claro!).

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Paradigmas 3

2, agosto, 2009 Giseli Ramos 20 comentários

Tem uma série de coletâneas chamada de Paradigmas, com volumes lançados regularmente pela editora Tarja. Já está no terceiro volume e vou falar justamente dele. A essa altura, não vou falar dos anteriores (claro que são bons), fiquei com preguiça, mas para quem quiser ler sobre eles, deixo aqui dois links com breves comentários da Cris Lasaitis aqui (vol 1) e aqui (vol 2). Aproveita para ler as outras resenhas e os posts, afinal, a guria escreve bem! =D

Vou comentar rapidinho sobre cada um dos 13 contos:

Baby Beef, Baby! – Richard Diegues – Conto com um ritmo alucinado e bem no espírito cyberpunk (à brasileira). Mas acho que acelerou tanto em alguns trechos que perdi até o fio da meada. Mesmo assim, é bem interessante o universo cyberpunk construído por ele.

O Mito da Fecundação – Ludimila Hashimoto – Ponto de vista sobre a reprodução um tanto “exótico”, por assim dizer. Bem bacana de se ler, espero ver mais coisas escritas pela autora.

Reminiscências de um Mundo Verde – Ronaldo Luiz Souza – Visão saudosista dos tempos em que ainda dava para desfrutar de um jardim ao ar livre. Gostei do recado vindo do amanhã.

O Animal Morto – Saulo Sisnando – Conto de suspense e terror, só lendo mesmo até o fim para saber o que acontece e ficar especulando sobre o que acontecerá.

Lamentações de Jeremias – Lúcio Manfredi – Conto bem inusitado sobre crítica, com um crítico alienígena de personagem da trama. Admito que achei o final ligeiramente confuso.

Esperança Corrompida – Leandro Reis – Apesar de eu ter achado um pouco óbvio como as coisas iam acabar, mesmo assim, achei bacana o conto sobre um cavaleiro perdido numa vila amaldiçoada.

Em Berço Esplêndido – Camila Fernandes – Mistura interessante de “causos” do interior com ficção científica. Só senti falta de uns trechos mais desenvolvidos no decorrer da trama, a história prometia. Mesmo assim, achei o conto bem bacana e diferente do que a autora costuma escrever.

Choque de Civilizações – Marcelo Jacinto Ribeiro – Realmente há situações em que dois pontos de vista são completamente diferentes. Gostei de ver que a transição entre dois mundos diferentes leva a visões díspares.

Hatzemberger – Davi M. Gonzales – Um conto interessante da série de coisas fora do nosso entendimento comum.

O Cavaleiro e o Senhor do Inverno – Gianpaolo Celli – Mesmo que tenha usado alguns elementos típicos que são clichês em algumas histórias, o autor soube contar bem a estória e ainda dá um desfecho interessante.

Velha Remington – Wolmyr Alcantara – Outro conto bacana da série de coisas fora do senso comum.

De Vento e Pedra – Viviane Yamabuchi – Interessante ver em forma de conto de fadas (não tão conto de fadas assim) a analogia com um relacionamento conturbado.

O Homem Bicorpóreo – Hugo Vera – Uma homenagem bacana a Isaac Asimov, que escreveu O Homem Bicentenário. A trama é bem interessante e bem que podia ser expandida mais um pouco.

Gostei da maioria dos contos e a apresentação da capa segue impecável como nas edições anteriores. Pode ser adquirida aqui.

Espero que continuem com a quebra de paradigmas!

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